Entre encontros históricos, homenagens, grandes vozes e um Palco Mundo tomado pela emoção, o quarto dia do festival celebrou diferentes gerações da música antes de Elton John transformar a Cidade do Rock em um grande coro
Há algo diferente no último dia de um fim de semana de festival.
A Cidade do Rock continua cheia, os palcos seguem recebendo artistas e o público ainda canta, dança e corre de um lugar para outro. Mas existe uma pequena sensação de despedida no ar.
Depois de quatro dias de música, encontros e histórias, o primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 chegou ao fim. E não poderia ter escolhido uma maneira mais simbólica de se despedir.
Na segunda-feira, 7 de setembro, com ingressos esgotados, o festival reuniu diferentes gerações em uma mesma Cidade do Rock. Do rock brasileiro à bossa nova, do jazz ao R&B, do samba à música eletrônica, a programação celebrou a diversidade que sempre esteve no coração do festival.
E então, no fim da noite, Elton John subiu ao Palco Mundo.
O resto virou história.
Uma abertura com sabor de Brasil
O Palco Mundo começou o último dia com um encontro que já dizia muito sobre aquela noite.
Luísa Sonza convidou Roberto Menescal para uma apresentação que aproximou o pop contemporâneo do funk e da bossa nova.
A artista abriu o show com “Doce mentira” e seguiu com “Santa Imaculada”, antes de receber Menescal para momentos como “Chico”, “Um pouco de mim”, “Você” e “Samba de verão”.
De um lado, uma das principais vozes do pop brasileiro atual. Do outro, uma lenda da música brasileira.
Duas gerações no mesmo palco — e a música fazendo a ponte entre elas.
Jon Batiste traz jazz, blues, gospel e Brasil para o Mundo
Na sequência, foi a vez de Jon Batiste.
O artista transitou pelo jazz, blues, gospel e samba, colocando seu virtuosismo ao piano no centro de um espetáculo que também abriu espaço para a música brasileira.
Entre as músicas apresentadas esteve “I Need You”, além de uma releitura de “Mas, Que Nada”, de Jorge Ben Jor, ao lado da cantora Nêgah Santos.
O palco ainda recebeu músicos brasileiros e a bailarina Ingrid Silva, reforçando o caráter multicultural da apresentação.
Gilberto Gil e uma despedida que ninguém quis aceitar
Antes do grande encerramento, o Palco Mundo recebeu um dos maiores nomes da música brasileira.
Gilberto Gil.
Aos 84 anos, em sua turnê de despedida, Gil revisitou uma trajetória que praticamente se confunde com a história da música brasileira.
“Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana” e “Aquele Abraço” fizeram parte do repertório.
Mas foi a fala de Gil sobre a possibilidade de aquela ser sua última participação no Rock in Rio que mudou o clima da Cidade do Rock.
A resposta veio imediatamente.
Um sonoro “não” da plateia.
Porque existem artistas que deixam de ser apenas artistas e passam a fazer parte da memória coletiva.
Gilberto Gil é um deles.
Sua presença naquela noite representava décadas de música, história e Brasil — e, para quem estava ali, era impossível não sentir o peso daquele momento.
Roupa Nova e Guilherme Arantes: nostalgia em forma de música
No Palco Sunset, a noite também foi marcada por encontros capazes de atravessar gerações.
Depois de 35 anos, o Roupa Nova voltou ao Rock in Rio com um repertório que praticamente dispensa apresentação.
“Sapato Velho”, “Dona” e “A Viagem” fizeram o público cantar, enquanto a banda também revisitou sua própria história dentro do festival.
Entre os momentos especiais esteve a participação de Guilherme Arantes, que fez sua estreia no Rock in Rio.
Ao piano, o artista interpretou “Cheia de Charme” e “Lindo Balão Azul”.
E o público acompanhou — porque algumas músicas parecem nunca sair de moda.
Péricles encontra a Motown
O Sunset ainda recebeu Péricles, que apresentou um projeto criado especialmente para o Rock in Rio e dedicado à lendária Motown.
Foram 13 sucessos da gravadora norte-americana, passando por Stevie Wonder, The Temptations, Lionel Richie, Jackson 5 e Smokey Robinson, com arranjos do maestro Maurício Piassarollo.
Até o figurino fazia parte da homenagem: Péricles surgiu de terno risca de giz e capa estampada com rostos de grandes nomes da música negra norte-americana.
Mais do que uma sequência de covers, foi uma celebração da influência da Motown sobre gerações de artistas.
Laufey e a delicadeza no meio da Cidade do Rock
Quando Laufey chegou ao Sunset, a atmosfera ganhou outro ritmo.
O jazz contemporâneo da cantora encontrou uma Cidade do Rock envolvida por sua apresentação e por uma cenografia grandiosa.
O momento mais especial veio quando Laufey cantou em português.
“Perdido de Amor”, de Luiz Bonfá, ganhou sua interpretação e reforçou a relação da artista com a música brasileira.
Depois, a cantora deixou o palco para cumprimentar os fãs que estavam na grade.
Um gesto simples que, por alguns instantes, diminuiu a distância entre artista e público.
Vanessa da Mata celebra 20 anos de carreira
Vanessa da Mata também celebrou seus 20 anos de carreira no Sunset, em uma apresentação que ganhou ainda mais força com a participação de Rubel.
Os dois dividiram o palco em “Ainda Bem”, “Medo Bobo” e “Carta de Maria”.
Uma celebração de trajetória que também trouxe ao palco uma nova geração da música brasileira.
E quando a noite parecia chegar ao fim…
Ainda havia música eletrônica.
No New Dance Order, a festa continuou noite adentro com Fatboy Slim, um dos nomes mais importantes da história da música eletrônica.
Antes dele, Max Styler abriu a pista, seguido pelo encontro entre Leo Janeiro e Simo Not Simon e pela apresentação de Aline Rocha.
Então Fatboy Slim assumiu.
E a madrugada continuou.
A música brasileira ocupou todos os cantos
Enquanto os grandes palcos concentravam alguns dos nomes mais aguardados da noite, a música brasileira também tomou conta dos outros espaços da Cidade do Rock.
No Espaço Favela, Tiee transformou o local em uma grande roda de samba e encerrou sua apresentação com “País Tropical”.
Depois, Mart’nália comemorou seu aniversário ao lado do público, sendo surpreendida com flores e balões e recebendo milhares de vozes em um “Parabéns pra Você”.
Para fechar, Belo, embaixador do Espaço Favela, transformou o local em um enorme coro.
No Global Village, a programação passou por Wanda Sá, Leila Pinheiro, Fernanda Takai, Joyce Moreno e João Bosco.
No Supernova, Maui, Melly, Zeca Veloso e Alee mostraram diferentes caminhos da música contemporânea.
A Cidade do Rock seguia viva em cada canto.
Elton John e o último capítulo do primeiro fim de semana
E então chegou o momento pelo qual milhares de pessoas esperavam.
As luzes do Palco Mundo diminuíram.
A expectativa aumentou.
E Elton John apareceu.
Não era apenas mais um headliner.
Era Elton John.
Um dos maiores nomes da história da música.
Depois de encerrar em 2023 a Farewell Yellow Brick Road, turnê que marcou sua despedida dos palcos após cinco décadas de carreira, o artista voltou para apresentações selecionadas — e escolheu o Rock in Rio para uma noite única na América do Sul.
“Your Song”.
“Tiny Dancer”.
“Rocket Man”.
“Bennie And The Jets”.
Músicas que já não pertencem apenas a um artista, mas a gerações inteiras.
Pais que cresceram ouvindo Elton. Filhos que descobriram suas músicas anos depois. Pessoas que talvez nunca tivessem imaginado que teriam a oportunidade de vê-lo ao vivo.
Naquela noite, todas estavam no mesmo lugar.
E cantaram juntas.
Elton John não precisou de grandes explicações.
Bastava o piano, a voz e aquelas músicas.
A Cidade do Rock respondia.
Um fim de semana para guardar
Quando o último acorde de Elton John ecoou pela Cidade do Rock, o primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 finalmente chegou ao fim.
Quatro dias.
Centenas de artistas.
Milhares de pessoas.
E incontáveis histórias.
Tivemos rock, metal, pop, hip-hop, R&B, jazz, samba, pagode e eletrônica.
Mas, acima de tudo, tivemos música.
Para nós, do Concerts In Brazil, acompanhar esses dias também foi viver tudo isso de perto: correria, shows, entrevistas, registros, encontros e aquela sensação que só quem passa um dia inteiro dentro de um festival conhece.
Você chega pensando que vai apenas cobrir.
E acaba vivendo.
No fim, o corpo pede descanso. A voz pede socorro. As pernas pedem uma cama.
Mas a cabeça continua lá.
No palco.
Na música.
Na multidão.
No último acorde.
E, quando Elton John deixou o palco naquela noite, ficou aquela sensação bonita e inevitável:
o primeiro fim de semana acabou.
Mas algumas noites não terminam quando as luzes se apagam.
Elas ficam.
E essa certamente vai ficar.
Rock in Rio 2026, até aqui, já nos deu histórias suficientes para uma vida inteira.
E ainda não acabou.

