Entre chuva, hits, reencontros, estreias e uma multidão que não parou de dançar, o terceiro dia do festival mostrou que o Rock in Rio também sabe — e muito — fazer festa
Se o segundo dia do Rock in Rio 2026 fez a Cidade do Rock tremer ao som das guitarras, o domingo, 6 de setembro, mostrou que não é preciso um riff pesado para fazer milhares de pessoas perderem completamente a voz.
Às vezes, basta um hit. Ou dois. Ou três.
Na verdade, talvez seja melhor colocar assim: bastaram algumas horas de música para transformar a Cidade do Rock em uma das maiores pistas de dança do mundo.
A chuva apareceu, os céus do Rio de Janeiro resolveram participar da programação e o público, em vez de diminuir o ritmo, simplesmente colocou suas capas, seus acessórios e continuou.
Do começo ao fim.
O terceiro dia do Rock in Rio foi daqueles em que a música parecia estar em todos os cantos. No Palco Mundo, grandes nomes internacionais dividiram espaço com uma das bandas mais importantes do rock brasileiro. No Sunset, brasilidade, R&B, pop e homenagens emocionantes tomaram conta da programação. No New Dance Order, a festa atravessou a madrugada.
E, quando parecia que a Cidade do Rock finalmente ia descansar, ainda tinha mais uma música para cantar.
Barão Vermelho abre o Mundo olhando para a própria história
O domingo começou no Palco Mundo com um encontro que carregava história.
O Barão Vermelho Encontro Formação Original reuniu Roberto Frejat, Guto Goffi, Mauricio Barros e Dé Palmeira, com participação especial de Fernando Magalhães, em uma apresentação que resgatou a relação da banda com o próprio Rock in Rio.
Presente na primeira edição do festival, em 1985, o grupo voltou ao palco décadas depois levando consigo não apenas seus clássicos, mas também a memória de uma geração inteira do rock brasileiro.
“Meus bons amigos”, “Pense e dance” e “Bete balanço” fizeram o público cantar, enquanto a homenagem a Cazuza transformou o início da programação em um daqueles momentos em que passado e presente se encontram.
Foi uma abertura com gosto de memória. E ainda havia muita história para acontecer.
Black Eyed Peas de volta ao Rock in Rio
Depois de uma abertura marcada pela história do rock nacional, o Palco Mundo ganhou outra energia.
Era hora de dançar.
O Black Eyed Peas voltou ao Rock in Rio para uma apresentação que transformou o espaço em uma enorme pista de dança.
Will.i.am, apl.de.ap e Taboo, acompanhados por J. Rey Soul, revisitaram alguns dos maiores sucessos da carreira e fizeram o público cantar do começo ao fim.
“I Gotta Feeling”, “Pump It”, “Rock That Body” e “Don’t Lie” foram alguns dos hits que fizeram a Cidade do Rock explodir.
E o grupo ainda encontrou espaço para colocar um pouco do Rio de Janeiro dentro do próprio show.
Com a participação de Papatinho, clássicos do funk como “Rap do Silva” ganharam espaço na apresentação, além da parceria inédita “We Live Up in Here”.
Foi aquele tipo de show em que a plateia parece conhecer cada palavra.
E canta todas.
Nelly estreia no Rock in Rio com direito a camisa do Brasil
Na sequência, outro nome que atravessou gerações chegou ao Palco Mundo.
Nelly fez sua estreia no Rock in Rio vestido de Brasil e trouxe consigo uma coleção de hits que ajudaram a definir o hip-hop e o R&B dos anos 2000.
“Ride Wit Me” colocou o público para cantar, enquanto “Dilemma” criou um daqueles momentos clássicos de festival: milhares de celulares acesos iluminando a Cidade do Rock.
E se alguém ainda tinha dúvidas de que músicas lançadas há mais de duas décadas continuam vivas, bastou olhar para a plateia.
“Just a Dream” encerrou a apresentação mostrando que algumas músicas simplesmente não envelhecem.
Elas encontram novas pessoas. E continuam sendo cantadas.
Jota Quest encontra Tim Maia no Sunset
Enquanto o Mundo seguia sua programação internacional, o Sunset preparava uma das apresentações mais especiais do domingo.
O Jota Quest subiu ao palco para homenagear um dos maiores nomes da música brasileira: Tim Maia.
O repertório inteiro foi dedicado ao “síndico”, revisitando músicas que fazem parte da memória afetiva do país.
“Dance enquanto é tempo” abriu o show, enquanto “Acenda o farol” e outros clássicos mantiveram o público cantando.
Mas foi a participação de Tony Tornado, aos 97 anos, que transformou o momento em algo ainda mais especial.
Amigo de Tim Maia e um dos grandes nomes da black music brasileira, Tony emprestou sua voz a “Sossego”.
Foi impossível não sentir o peso daquele encontro.
Mais tarde, Rogério Flausino desceu do palco e encontrou o público em meio a um mar de lanternas, antes de seguir com “Você”, “As dores do mundo” e a participação de Negra Li em “Descobridor”.
Para fechar, “Não quero dinheiro”.
E, sinceramente, existe música melhor para encerrar uma homenagem a Tim Maia em pleno Rock in Rio?
NE-YO encerra o Sunset com uma multidão na mão
Depois de uma noite inteira de celebração da música brasileira e de diferentes gerações, chegou a vez de NE-YO.
O cantor trouxe para o Sunset alguns dos maiores sucessos de sua carreira e conduziu o público por uma viagem pelo R&B e pelo pop das últimas duas décadas.
“So Sick”, “Miss Independent” e “Closer” estavam entre as músicas que fizeram a Cidade do Rock cantar junto.
Mas um dos momentos mais especiais aconteceu quando NE-YO deixou o palco e desceu para cumprimentar os fãs que estavam nas grades.
Porque, às vezes, um artista pode ter um palco gigantesco, telões enormes e milhares de pessoas diante dele.
Mas nada substitui a proximidade.
Calvin Harris faz história no Palco Mundo
E então chegou o momento que transformaria o terceiro dia em história. Calvin Harris.
Pela primeira vez, um DJ ocupou a posição de headliner do Palco Mundo.
E se alguém ainda precisava de uma prova de que música eletrônica já faz parte da identidade do Rock in Rio, aquele domingo deixou isso bem claro.
Em um ano que celebra 25 anos de música eletrônica no festival, Calvin Harris encerrou a noite transformando a Cidade do Rock em uma gigantesca pista de dança a céu aberto.
“Summer”, “One Kiss”, “We Found Love” e “This Is What You Came For” fizeram parte de um repertório pensado para ninguém ficar parado.
Os enormes painéis de LED ganharam imagens e efeitos que, junto às luzes e aos lasers, criaram uma experiência audiovisual gigantesca.
Mas o protagonista continuava sendo o público.
Milhares de pessoas dançando juntas. Cantando. Pulando. Filmando. Vivendo aquele momento.
E talvez esse tenha sido o grande significado da escolha de Calvin Harris como headliner.
O Rock in Rio nasceu do rock. Mas cresceu entendendo que música nunca foi uma coisa só. E naquele domingo, o festival provou isso mais uma vez.
A festa não terminou no Palco Mundo
Se alguém achou que a noite acabaria quando Calvin Harris deixasse o palco, estava muito enganado.
O New Dance Order continuou funcionando como uma verdadeira pista de dança madrugada adentro.
A programação começou com o movimento “Dance For a Better World”, trazendo uma mensagem de amor, paz e diversidade acompanhada por luzes, coreografias e música eletrônica.
Depois vieram Sofi Tukker, Casa Bonita, Liu e MEDUZA. A pista simplesmente não parou.
E isso talvez seja uma das coisas mais interessantes do Rock in Rio: enquanto um palco está encerrando sua programação, outro está apenas começando.
Você pode chegar cansado. Pode estar molhado. Pode ter passado horas em pé. Mas aí começa uma música que você conhece. E pronto. Lá vai você de novo.
A Cidade do Rock inteira entrou na dança
O domingo não aconteceu apenas nos dois maiores palcos.
No Espaço Favela, Budah, Rael e Xamã levaram rap, trap, funk e diferentes referências da música brasileira para o público.
No Supernova, a programação passou por O Escritório, Bayside Kings, Matanza Ritual e pelo especial “Blitzkrieg Psycho Bop — Ramones 50 Years”, com João Gordo e Asteroides Trio celebrando cinco décadas de uma das bandas mais influentes do punk rock.
Já o Global Village recebeu Bento Gil e Flor Gil, Mãeana e Mohamed Ramadan, ampliando ainda mais o mapa musical do festival.
Era música para todos os lados. E, no meio disso tudo, a chuva. Mas ninguém parecia disposto a ir embora. Chuva, música e memórias
Talvez a melhor imagem para resumir o terceiro dia do Rock in Rio 2026 seja justamente essa: uma Cidade do Rock molhada, lotada e dançando.
Capas de chuva dividindo espaço com camisetas de bandas. Pessoas correndo entre os palcos. Amigos tentando se encontrar no meio da multidão. Gente cantando músicas que conhece há vinte anos.
Gente descobrindo artistas pela primeira vez. Pais e filhos vivendo o festival juntos. Casais criando novas memórias. E milhares de pessoas simplesmente aproveitando o privilégio de estar ali.
Porque um festival não é feito apenas de headliners. É feito também de tudo aquilo que acontece entre eles. Do show que você não esperava gostar. Da música que toca no momento certo. Do artista que você descobre. Da pessoa que você encontra. Da chuva que deveria atrapalhar, mas acaba virando parte da história. E talvez seja exatamente por isso que o Rock in Rio continua sendo tão especial.
Até o próximo dia
Quando Calvin Harris encerrou o Palco Mundo e as luzes começaram a diminuir, o terceiro dia finalmente chegou ao fim. Mas a sensação era diferente daquela deixada pelo sábado.
Se o segundo dia nos lembrou por que o rock continua tão poderoso, o domingo mostrou que o Rock in Rio é grande justamente porque consegue abraçar muito mais do que um único gênero.
Rock.
Pop.
Hip-hop.
R&B.
Funk.
Música brasileira.
Eletrônica.
Tudo cabendo na mesma Cidade do Rock.
Tudo acontecendo ao mesmo tempo.
E, no final, todo mundo dançando junto.
O terceiro dia foi sobre isso.
Sobre celebrar.
Sobre cantar.
Sobre reencontrar músicas que fazem parte da nossa história.
Sobre descobrir novas.
Sobre dançar mesmo debaixo de chuva.
Sobre olhar para o palco e perceber que, naquele momento, não existia mais nada além daquela música.
O Rock in Rio 2026 continua.
E depois de um domingo desses, uma coisa já ficou clara:
a Cidade do Rock pode até fechar os portões no fim da noite. Mas a festa que acontece lá dentro continua muito depois do último beat.

