
O terceiro — e último — dia do Lollapalooza Brasil 2026 começou com aquela sensação agridoce que só quem vive festival entende. O cansaço já estava presente, a voz já não saía tão fácil, mas a energia… essa parecia renovada a cada passo dentro de Interlagos. Era o último dia, e todo mundo sabia disso. Cada show carregava um peso diferente, cada escolha no line-up parecia mais difícil, e cada momento vinha com aquela consciência silenciosa de que estava acabando.
Ao longo de três dias, o festival reuniu cerca de 285 mil pessoas e consolidou uma das edições mais fortes dos últimos anos — tanto pela diversidade quanto pela curadoria certeira. E o domingo foi a prova final disso: um dia que transitou entre gêneros, gerações e emoções com uma naturalidade que só o Lolla consegue entregar.
No Palco Budweiser, o clima foi de construção até o grande encerramento. Desde cedo, artistas nacionais como Papisa e Mundo Livre S/A aqueceram o público com apresentações cheias de personalidade, mostrando a força da música brasileira dentro do festival. Na sequência, Djo entregou um dos shows mais comentados do dia — daqueles que surpreendem até quem ainda não conhecia tão bem o artista. Com presença envolvente e um repertório que conecta rápido, ele conquistou o público de forma orgânica, criando um daqueles momentos em que todo mundo se olha como se dissesse: “ok, isso aqui é especial”.
A intensidade seguiu com o Turnstile, que transformou o palco em um verdadeiro campo de energia. Com sua mistura de hardcore e melodias marcantes, a banda elevou o nível do público — e manteve essa energia até o último segundo, inclusive com interação direta que reforçou o clima caótico e coletivo que define o gênero ao vivo.
E então veio Tyler, The Creator.
Em sua primeira apresentação solo no Brasil, ele não só atendeu às expectativas como transformou o encerramento em um espetáculo completo. Visualmente marcante, musicalmente afiado e com uma presença de palco impossível de ignorar, Tyler conduziu o público por uma jornada que misturava estética, narrativa e hits já consagrados. Era mais do que um show — era uma experiência pensada nos mínimos detalhes, daquelas que te prendem do início ao fim sem nem perceber o tempo passar.
Enquanto isso, o Palco Samsung Galaxy seguia por outro caminho — mais emocional, mas não menos impactante. Lorde protagonizou um dos momentos mais bonitos de todo o festival. Seu retorno ao Brasil veio carregado de significado, e isso se refletiu em cada música. Quando os primeiros acordes de “Liability” ecoaram, o público respondeu com um mar de luzes que transformou Interlagos em algo quase íntimo, apesar da imensidão. Foi daqueles momentos que não precisam de grandes efeitos — só conexão.
Antes dela, Addison Rae mostrou por que vem se consolidando como um nome forte no pop atual. Com um show dinâmico, coreografias marcantes e uma estética bem definida, ela trouxe um dos sets mais animados do dia, criando um contraste interessante com a atmosfera mais contemplativa que viria depois. Já Royel Otis manteve o clima leve e indie, perfeito para aquele fim de tarde em que o sol começa a cair e o festival ganha uma nova cor.
No palco Flying Fish, a diversidade sonora continuou sendo um dos pontos altos. Oruã trouxe uma proposta mais experimental e psicodélica, enquanto FBC apostou na mistura envolvente entre rap e funk, mantendo o público em movimento constante. E entre os destaques mais comentados, o KATSEYE fez sua estreia no Brasil com um show que chamou atenção não só pela performance precisa, mas também pela conexão com um público mais jovem, mostrando como o festival continua se renovando a cada edição.
Já no Perry’s by Fiat, a música eletrônica assumiu o protagonismo com sets que atravessaram diferentes vertentes ao longo do dia. E, no encerramento, Peggy Gou transformou o espaço em uma pista coletiva até os últimos minutos do festival. Com grooves envolventes e uma energia crescente, ela conduziu o público em uma despedida dançante — daquelas que fazem a gente esquecer, por alguns instantes, que o fim chegou.
E talvez seja exatamente isso que define o Lollapalooza.
Mais do que números impressionantes ou line-ups recheados de nomes grandes, o festival é sobre experiência. Sobre viver três dias intensos onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo — e ainda assim cada pessoa leva uma história diferente pra casa. Sobre cantar com desconhecidos, andar sem rumo entre palcos e, de repente, encontrar o seu momento favorito onde menos esperava.
Quando as luzes se apagam e Interlagos começa a esvaziar, fica aquele silêncio estranho — quase como se o espaço ainda ecoasse tudo o que aconteceu ali.
E no meio disso tudo, uma certeza se repete todos os anos: a gente sempre vai querer voltar.
Texto: Giovana S. Ferreira.




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