
Existem bandas que marcam fases. Outras marcam pessoas. O My Chemical Romance pertence a uma categoria ainda mais rara: a das bandas que ajudam a construir identidades.
E quando uma banda se torna parte de quem somos, a espera por seu retorno deixa de ser apenas expectativa — vira memória em suspenso. Nos dias 05 e 06, essa memória finalmente encontrou o presente, em um reencontro que atravessou gerações, cicatrizes, saudades e versões diferentes de quem já fomos um dia.
Quase vinte anos se passaram desde a última visita da banda ao país. Tempo suficiente para que adolescentes virassem adultos, para que dores mudassem de nome e para que músicas deixassem de ser apenas trilha sonora, transformando-se em linguagem emocional. O reencontro não aconteceu em um vazio — aconteceu em um espaço preenchido por memória afetiva.
Talvez por isso o que se viu no palco tenha ultrapassado qualquer expectativa tradicional de show.
Desde o início, ficou claro que não se trataria apenas de música ao vivo. O My Chemical Romance construiu uma experiência performática completa, transformando o palco em uma extensão do próprio universo narrativo da banda. Não era só som. Era encenação, dramaturgia, estética e simbolismo dialogando ao mesmo tempo.
Quando The Black Parade começou a ser executado, a sensação era de assistir a uma obra conceitual ganhando vida diante dos olhos do público. Figurinos, movimentos calculados e uma construção visual dramática criavam a impressão de que cada música fazia parte de uma narrativa maior — como se o espetáculo fosse dividido em atos, e não apenas em faixas.
Gerard Way assumia o centro dessa experiência como alguém que não apenas interpreta, mas incorpora personagens e emoções. Sua presença transitava entre vulnerabilidade e teatralidade, conduzindo o público por uma jornada que parecia, ao mesmo tempo, coletiva e profundamente íntima.
Mas, em muitos momentos, o espetáculo também acontecia longe do palco.
Nas arquibancadas, na pista, nos rostos iluminados pelas luzes do show. Nas pessoas cantando com os olhos fechados, como quem tenta guardar cada segundo dentro do próprio corpo. Nas lágrimas que não eram escondidas, porque ali não existia necessidade de disfarçar nada.
O My Chemical Romance sempre dialogou com sentimentos que nem sempre encontram espaço para existir com liberdade. Ao vivo, essa conexão se torna quase física. Era possível perceber o peso emocional de milhares de histórias pessoais se cruzando naquele mesmo espaço.
Após a parte mais teatral e conceitual da apresentação, o clima se transformou. A grandiosidade dramática deu lugar a momentos mais diretos e humanos. Conversas com o público surgiam entre as músicas, criando uma atmosfera de proximidade que contrastava com a intensidade visual apresentada até então.
Era como se a banda dissesse, sem precisar verbalizar: nós também sentimos isso.
O setlist percorreu diferentes fases da carreira, funcionando como uma linha do tempo emocional. Algumas músicas surgiam como gritos coletivos de libertação, enquanto outras carregavam um tom melancólico, como lembranças que ainda doem, mas também acolhem.
“I’m Not Okay (I Promise)” ecoava como catarse coletiva, enquanto o encerramento com “Helena” se transformava em um dos momentos mais intensos da noite, cantado por milhares de vozes como uma despedida que ninguém queria aceitar.
Talvez o maior mérito dessas duas noites tenha sido provar que o My Chemical Romance nunca foi apenas sobre nostalgia. Foi sobre continuidade. Sobre entender que crescer não significa abandonar quem fomos, mas aprender a carregar essas versões com mais cuidado.
Quando as luzes se apagaram pela última vez, ninguém parecia pronto para aceitar o fim. Ainda havia pessoas abraçadas, outras observando o palco vazio como quem tenta prolongar o momento por alguns segundos a mais. Era aquele silêncio carregado de significado que só surge depois de experiências que ultrapassam o entretenimento.
O retorno do My Chemical Romance ao Brasil foi mais do que histórico. Foi emocionalmente necessário. Um lembrete de que algumas bandas não apenas acompanham a vida de quem escuta — elas ajudam a moldar a forma como essas pessoas sentem o mundo.
Foram duas noites que não podem ser resumidas em números, setlists ou registros técnicos.
Foram duas noites que mostraram que certas conexões não envelhecem.
Elas apenas esperam o momento certo para voltar a pulsar.
E, quando voltam, lembram que algumas músicas não são apenas ouvidas.
São vividas.
Texto: Giovana S. Ferreira.




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